Eu me tornei inamável. Ao menos por enquanto, eu não consigo cogitar que o amor seja uma possibilidade para mim. Não é por trauma, nunca o amor me traumatizou; ao contrário, ele me libertou de todas as manchas que haviam em mim. Eu me tornei inamável porque eu preciso, finalmente, aprender algo verdadeiro sobre aquilo que sou. Eu preciso ter um tempo só para mim e conseguir gostar disso. Eu preciso me amar completamente para que então eu tenha condições de estar disposto e inteiro para alguém. Eu preciso amar as parcelas de loucura que ainda guardo, eu preciso recompor os pedaços da minha pessoa que ficaram perdidas - em mim. Eu preciso recusar as vozes da minha cabeça que insistem em dizer que sou fraco, impotente e infeliz. Elas me tornam inseguro. Eu preciso me curar, porque ninguém deseja - tampouco merece - um amor doente, sequer eu. Eu não quero tornar alguém a segurança que sempre faltou em mim porque isso significa não ter responsabilidade com aquilo que sou. A minha pessoa precisa tanto de mim... Eu quero alguém que não precise cuidar de mim mais do que eu mesmo, porque sei que mais cedo ou mais tarde, isso exaure. Eu não quero ser o peso da vida de alguém, nem ser sua única leveza. Também não quero "completar" a vida de alguém, nem ter minha vida "completada". Eu quero estar completo comigo o suficiente para poder dizer "como é bom partilhar essa satisfação contigo" e, sorrindo, entender quão livre é o amor. Eu não quero olhar para alguém por quem nutro imenso amor e não me sentir merecedor disso. O amor nunca foi uma questão de mérito, crédito ou honra. O amor nos ama e nós acontecemos nele. É ao mesmo tempo tão simples e tão complexo! Eu não quero olhar para os sonhos de alguém e vê-los em cima de uma montanha onde nunca conseguirei chegar. Eu não quero ouvir um "eu tenho orgulho de você" e sentir culpa por isso. Eu quero sentir orgulho de mim também, eu quero saber ser alguém que sabe ser sozinho. Quero ser alguém que tem os pés no chão e não as mãos. Quero ter um monte de sonhos, sim, porém os mais simples e reais. Eu quero sonhos possíveis. Uma casinha, um cão, um filho, dois, três... com muito esforço, uma biblioteca. Fim de semana no rio, na praia, no quintal. Eu quero felicidade. Mas antes de toda e qualquer coisa, antes de ser de alguém, antes de fazer parte da vida de outra pessoa, eu quero ser meu! Eu quero me amar, no meu desleixo, na minha angústia, no meu descontrole, na minha neurose. Eu quero me admitir exatamente do jeito que sou e tão suficientemente que eu seja capaz de dizer: agora eu posso pertencer ao mundo de alguém porque eu pertenço ao meu. Eu não sei que dia vai ser este. Talvez leve um mês, ou um ano, ou a minha vida inteira. Talvez nem chegue esse dia... talvez eu exploda antes disso. Eu não sei. Tudo o que posso ser capaz de saber é que eu ainda não estou pronto e que ao amor eu só posso desejar agora: descanso.