Guardados, os panos do guarda-roupa de mamãe tinham quase a mesma esperança que eu. Quando lhe pedi a toalha, crente de que tomaria banho, não suspeitava que ela me estenderia - laranja e enxuta - uma grande crise existencial. Quando a tomei das mãos de mamãe subiu-me um cheiro de infância: pura naftalina!

Cinco minutos depois estava eu invertendo a lógica das coisas, sendo molhado pela toalha, retirando e enxugando de seu corpo algo. Algo que, não sei explicar, havia feito um dia parte de mim também. A esfreguei timidamente pelo meu rosto enquanto cuidava, receoso, de não ser visto, olhando bem pelo canto dos olhos se de fato estava só. Não vi ninguém. Me acontecia então, estranhamente, de estar afogando em mim, anos e anos dentro. Isto, sob uma sensação que não tinha, aparentemente, nem rosto nem nome senão meu próprio rosto, senão meu próprio nome.

Olhei ao redor, não me reconhecia muito. Enrolando em meus braços - como se fazendo os moldes de um bebê - tomei a toalha no colo e a ninei. Pensei em arriscar alguma cantiga, mas nunca tinha ouvido uma sequer. Lembrei de mamãe me pondo para dormir na rede enquanto cantarolava sem letra alguma coisa mariana. Quis fazê-lo igual, muito embora o choro não me tenha permitido tão bem. Estava em pleno surto.

De repente, o mesmo som do armador rangendo nítido aos meus ouvidos enquanto o silêncio se alastrava pela casa velha - ainda do mesmo jeito de quando a deixei - e eu, estagnado, sem saber quem eu era! Oras o menino, na rede, zangado com a mãe por ter de dormir sob a imposição de seu horário, oras a própria mãe em contemplação ao filho. Eis que lhe acomodei mais em meu colo, como se para amamentá-lo com meus peitos secos de homem magro. Consentia: "um menino". Chorei tão fino... como filho, como homem, como mulher. Abracei a toalha que aos poucos ia ficando grudenta e banhada em suor e lágrima e tão somente a respeitei o quanto pude, como a uma criança faminta.

De amor, faminta. Pobre criança, nunca teve nada. Brinquedos, sapatos, afetos, domingos... Eu quis lhe dar tudo! O zelo que não lhe deram pingava de minhas mãos na cor laranja-quase-sangue. Dei o tanto de amor quando existia em mim. Sentia vibrar alegre em meu colo. Eu a amei.

Passado o tempo que não lembro quanto, mamãe bateu a porta do quarto e me olhou como se estivesse ali já a um tempo. Tive um enorme susto e me senti doido. Sacudi ligeiro a toalha no chão e fingi coçar o os olhos como um míope sem óculos:

— Achava que já tinha ido banhar, meu filho. Tenho pressa pelo banheiro. Vou à missa.

— Sim, mãe, estou indo... Me distraí com a naftalina.