O Amor de minha Mãe escorre rude
atrás de seus olhos baixos.
Me demorei anos até entender...
Tímido, o Amor de Minha mãe
me foi dado do escuro:
era preciso dormir para tê-lo.

Certo dia, com medo da noite,
depois da ordem materna "vai dormir logo, menino!"
me deitei e fechei os olhos
para o Bicho debaixo da cama não me pegar.
Estava quieto, tentando não tremer, fingindo dormir e mudo...
mas por dentro não havia ninguém mais acordado do que eu.

Ainda me lembro que
- paralisado na cama - 
eu sentia tudo em um grande segredo.
como doía, O Amor de minha Mãe.
Ele chegava assim: "deixa de frescura, menino".

A porta do quarto abriu
(só podia ser o bicho!)
Fiz como calango e fingi ter morrido. 
Mas era Mamãe.

Ajustou os lençóis. 
Sentou do meu lado na cama.
Arrastou seus cabelos longos e pretos e lisos
sobre o meu rosto.

Desapercebido, o Amor de minha Mãe
- supondo não haver ninguém à espera -
saiu da gaiola
rompeu o portão de ferro preto
deixou seu peito
deslizou até o meu
e ficou comigo.

Meu coração, selvagem como um bicho,
estremecia dentro do silêncio que era quase um grito.

O Amor de minha Mãe caiu sobre meus braços vazios:
se atualizou
se decretou
se cumpriu.

Silencioso e rouco,
o Amor de minha Mãe fez barulho dentro de mim...
foi quando eu senti, ainda que nada me tivesse sido dito:

eu te amo meu filho

No dia seguinte, dia normal de inverno,
O Amor de minha Mãe era gritado da janela:
"não deixa a roupa molhar no varal, menino"
"tira a roupa do varal"
"Não tá ouvindo eu mandar ir logo, menino?"

E eu corria no meio da chuva
satisfeito e livre
como se algo diferente circulasse em meu sangue.
Já não importava a ordem,
Já não importava o grito.

Agora eu o sabia:
O Amor de minha Mãe havia dormido comigo.



- Abigaiu