O alho da sopa que ele cozinhava permanecia em suas mãos, como um registro. Eu sentia o cheiro forte quando ele alisava meus cabelos. Quando nos dias, vinha do trabalho direto aqui para casa. Aos fins-de-mês não tínhamos dinheiro nenhum para comer fora então ele retirava da mochila um restinho de bolo de cenoura que trazia do trabalho. Sempre colocava Gregory para tocar, eu deitava em sua perna e comíamos. Era uma mania dele; com uma mão, afagava minha cabeça, com a outra, comia. Alguns farelos de bolo ou pão sempre caiam em cima de mim e eram levados pelo ventilador. Víamos filmes ou ríamos um pouco da vida enquanto lembrávamos dela. Falávamos sobre tudo. Às vezes um de nós por algum motivo estava triste então nós apenas contávamos um com o outro. Às vezes ficávamos em silêncio também. Talvez não estivéssemos alegres sempre, mas era certo que estaríamos bem. Quando alguém ligava para ele, já havíamos combinado, eu deveria atender e dizer “Oi, ele não está podendo falar agora, você quer deixar algum recado?”. Daí a gente caia na gargalhada porque a teoria dele de que ninguém nunca deixava recado sempre dava certo. Lá pelas dez e pouco, quando já ficava tarde, ele me dava um beijo e ia embora, morrendo de vontade ficar. Foi assim por alguns meses.
Foi assim por alguns meses até o cheiro do alho em suas mãos se tornar um incômodo para mim. Até o bolo de cenoura passar a parecer sempre um resto. Passei a achar chato ver filmes no notebook quebrado. Numa noite de quarta, que era quando ele precisava ir mais cedo para casa, disse a ele que havia cansado daquilo e que precisava de um tempo. Ele chorou muito, me abraçou, perguntou se eu tinha certeza daquilo e me disse que se era para o meu melhor, ele aceitaria. Soube depois que ele sofreu muito também, mas que conseguiu ficar melhor. Pouco tempo depois encontrei outra pessoa.
Encontrei outra pessoa por quem eu realmente me apaixonei, ao nível da loucura. Ele nunca vinha à minha casa, mas não tinha problema porque nós íamos ao cinema. Ele não gostava de Gregory, então passamos a ouvir a sua banda de rock favorita. Eu passei a dizer que gostava também, acho que só para agradá-lo. Esse meu novo amor não me ligava, mas a gente trocava mensagem quando ele tinha tempo. Quando eu falava que estava triste ele me dizia que tivesse paciência, que logo passaria... percebi, inclusive, que ele não gostava muito dos meus sentimentos ruins. Passei a me esforçar para estar feliz sempre. De fato ele era totalmente o contrário do meu primeiro namorado, mas eu o amava mais. Brigávamos muito, mas eu o amava mais. Ele me traiu algumas vezes, fiquei desconsertado quando descobri, mas eu o amava tanto que fui capaz de perdoá-lo sem nem comunicar a ele que eu sabia disso. Ele chegou a me bater uma vez, mas eu o amava mais.
Um dia ele me deixou. Disse que eu tinha problemas, que era muito carente, que cobrava de mais. Que ele gostava de ser livre. Que achava que na verdade nunca tinha me amado. Lembro que fiquei sem chão nesse dia. Eu rodava pelo meio da casa, sem parar, porque nada em mim fica quieto. Levou muito tempo até eu me erguer novamente. Se é que me reergui. Realmente doeu muito tê-lo perdido. Eu me quebrei em vários caquinhos. Senti tanto medo, tanta solidão. O mundo ficou sem sentido por algum tempo. Cheguei a pensar que eu ia morrer. Mas o tempo passou. Ele nunca leva tudo, mas trata de levar alguma coisa sempre.
O tempo passou e, outro dia, dia desses mesmo, estava em casa fazendo sopa para a janta quando, de repente, alguma coisa me invadiu. Fazia tempo que não sentia isso. Uma coisa no peito, apertando forte. Ali pertinho do fogão, entre um mexido e outro, querendo engrossar o caldo, percebi; eu sentia o cheiro do alho! Quase que uma lágrima descia dos meus olhos, mas eu a prendi com todas as forças que eu tinha. A detive dentro, presa, como um pássaro engaiolado e senti ela estremecendo tudo no meu peito. 

Terminei a sopa. Me servi. Lavei a louça. Peguei a toalha e fui pro banho. Fiz tudo isso com aquilo entalado ainda no meu peito. Um aperto estranho. Armei a rede na varanda e fiquei um pouquinho ali. Pensei em tanta coisa... Minha mão cheirava a alho. Pus Gregory para tocar. Desceu uma coisa meio triste em mim. Eu chorava tanto, tanto, meu Deus, que parecia que nunca mais ia nunca ter fim.

Lembrei daquele meu primeiro amor, algo como um filme passa na minha cabeça. Ele tinha sido tão bom. Ele realmente me amou.  Fiquei pensando comigo por que eu não pude reconhecer o quanto era verdadeiro aquilo que a gente tinha, por que eu sentia tanta falta de alguma coisa que eu nunca soube o quê. Depois disso, lembro que me dei conta de que talvez ele tivesse ficado tão mal quanto eu fiquei depois do término que eu propus. Meu coração ficou do tamanho de um caroço de acerola. Parecia que eu simplesmente não sabia o que tinha sido aquilo tudo. Pior do que isso foi quando eu quase gritei, porque, do nada, eu entendi: eu não sei receber amor. Fiquei espantado quando, rememorando as coisas, lembrei que todas as vezes em que fui amado, eu não fiquei. Todas as vezes. Fiquei muito tempo me perguntando o que aquilo dizia de mim. 

Saí da rede, fui pro quarto tentar dormir. Virei, mexi na cama. Liguei, desliguei o ventilador. Chorei mais um pouco, lembrei mais algumas coisas, pensei outras. Me arrependi. Subiu-me um ódio no meu coração, de mim por mim. Tentando diminuir isso, peguei meu telefone. De modo afoito, com taquicardia, com medo e esperança, eu acho... nem sei: decidi ligar.

Chamou uma vez, duas, três.. Senti o instante preciso em que a chamada se abriu.  Conexão estabelecida! Meu coração já quase saltando pela boca. Do outro lado, uma voz que eu não conhecia:

 —  Oi, ele não está podendo falar agora, você quer deixar algum recado?


 P.S: O título desta publicação é uma referência a Clarice Lispector, mais especificamente de algum lugar no livro A paixão segundo G.H.